quinta-feira, 13 de abril de 2023

TAB - Grito entalado

"Só sinto no ar o momento em que o copo está cheio
e que já não dá mais pra engolir.
(A canção Grito de Alerta foi composta por Gonzaguinha e lançada na voz marcante de Maria Bethânia, em 1979.) Ouça aqui.


É bem difícil entender o outro, o ser que não é você, que habita outro corpo. O outro é todo mundo, menos você; mas, às vezes acontece de um outro estar dividindo espaço no mesmo corpo, na mesma mente, no mesmo coração.

Ser bipolar, estar no espectro bipolar, é conviver com um reflexo de si, distorcido e sorrateiro, não há avisos de que a chave vai virar e tudo se inverterá, simplesmente você vira outra pessoa. Já perdi as contas de quantas vezes eu ouvi essa frase: "você parecia outra pessoa", sim, eu chave tinha virado, como um disjuntor que desmonta quando você está no banho quente, a luz se apaga, a agua fica fria e lá vai você, todo ensaboado e molhado, tateando pela casa, para achar "ligar a chave". 

Quando eu tinha 20 e poucos anos, tinha o hábito de dizer que minha alma parecia um ratinho em um labirinto, correndo desesperadamente e o labirinto era minha mente. Passava dias sem conseguir coordenar as ideias, numa agitação que, agora eu sei, deixava irritada e sem paciência nenhuma. O TAB já estava lá, mas era chamado de TPMC (c é de cão, meu pai gentilmente criou essa categoria para mim, TPM do cão), de gênio forte, de temperamento colérico, entre tantos outros. 

Agora, você deve estar se perguntando o por quê do título, certo?
Na fase da mania ou hipomania (euforia), pode acontecer de uma raiva tomar conta, com muita violência e assustar quem está perto. Eu já tive essas explosões, perdi diversos empregos, amigos e relacionamentos por conta disso. Na hora da fúria, as palavras saem por conta própria,  nem sempre verdades, mas sempre agressivas. O grito entalado é o exercício constante, controlar a fera e não deixar a avalanche de ofensas descer a montanha.

Eu sei que música que escolhi para ilustrar se chama Grito de Alerta, mas os versos escolhidos traduzem a vida de quem vive a bipolaridade, porque nosso copo está sempre cheio, mas há um grito entalado que não nos deixa engolir.



Até breve.

terça-feira, 11 de abril de 2023

Transtorno Afetivo Bipolar - TAB, hora de falar sobre isso *1




Tá com tempo? Vou te contar uma história.

Eu nunca me senti "normal", eu nunca estive à vontade comigo mesma e nem com os outros. 
Sempre fui chorona, enfezada, raivosa, ou melhor, furiosa. Poucos conseguiam acessar minha suavidade, meu apreço e meu carinho; quem conseguia, sabendo cuidar, o manteria (algumas dessas pessoas ainda mantém) eternamente.

Aos treze anos, me recordo da primeira vez que a tristeza me invadiu, como se sugasse de mim toda minha luz e me deixasse densa, no breu dos meus pensamentos. 

Eu experimentei o vazio, não imaginava e nem imaginaria, que esse seria meu companheiro de jornada. Meus diários de adolescente são repletos de tristeza e dor. Nada nunca fez muito sentido, eu me perguntava por que as pessoas queriam tanto continuar viva? Mas havia dias que eu superava, vivia e animava como se tudo estivesse bem.

Da adolescência para a vida adulta, vivi paixões épicas e avassaladoras, que duravam dois a três meses e terminavam, assim como começaram. Não me importava o impacto, se era um rapaz bonito ou muito jovem, se era muito mais velho, eu me permitia viver cada paixão como quem vive um filme e me esquecia que na vida os créditos não sobem, porque não tem final feliz, porque a vida continua no dia seguinte. 

Geralmente, depois de promessas de amor eterno, de beijos calorosos e o desejo, amarrado e contido pela religião, eu acordava uma manhã e estava lá o vazio, sentado ao pé da minha cama, me assombrando e me avisando que aquela alegria tinha acabado. Eu terminava os namoros e sofria, chorava por dias, porque aquele enorme vazio passava a ocupar tudo.

Hoje, com o diagnóstico e com mais dados, posso entender comportamentos que eu não sabia explicar, que eu experienciava às cegas. Minha vida inteira foi um campo de batalha onde eu estava vendada.
Descabelada

Ainda não é fácil, quando eu penso que acertamos na medicação, algum efeito colateral me derruba e a saga recomeça. Estou no caminho, na luta, sem as vendas mas sem óculos de proteção. 

Conhece alguém que tenha o diagnóstico? Suspeita de que alguém possa ser uma pessoa com TAB? Comente.

segunda-feira, 10 de abril de 2023

Lusco fusco


 LUSCO FUSCO 

Quando o calor arrefece

A fronte já não escorre

Os olhos podem mirar o céu

Sem ferir os olhos, eis o momento.

Os pássaros voltam para os seus ninhos

As crianças já estão seguras em casa

Os trabalhadores findam seu labor

Se acomodam no transporte, eis o momento.

Quando os outros laços já estavam desfeitos

O coração desacreditado se protegia

As rugas rasgavam a face desanimada

Um clarão suave fez desmanchar o dia

Para nascer a noite

Eis o momento, lusco fusco, em que eu achei ter visto o amor.



Lagoa Maior - Três Lagoas/MS



quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

7 meses e meio - Voltando devagar

 O que se previa terminar em trinta dias tomou uma proporção gigantesca, volumosa e nada, nada bonita.

Os primeiros 30 dias passaram, contados um a um, com fotos, mensagens que foram postados no Instagram e tomados de mim, sem uma explicação lógica. Tirar minha voz, meu direito de argumentar, é pior do que me tirar meu ar, me sufocar lentamente.

Foram muitas pequenas e grandes coisas, foram 218 dias, muitos deles de prostração completa, de desolação, de solidão. O sorriso pálido, de cera para que eu parecesse minimamente bem, o caminhar arrastado pelo corredor do quarto para a sala e então de volta ao quarto. 

Ter que ser duas pessoas: uma que esconde os remédios, o bisturi, os sacos plásticos, que é forte para levantar e passar o café de manhã e mandar os filhos para escola e; outra que procura o bisturi escondido, que corta onde ninguém enxerga, que toma os comprimidos e depois cospe, que coloca o saco na cabeça e chora no chão do banheiro, ter que viver sendo as duas cansa mais do que tudo, para evitá-las eu durmo, no mundo onírico não há disputa pela vida ou morte.


Transtorno Afetivo Bipolar

Em termos leigos, a pessoa que hora está alegre e por qualquer coisa já explode ou fica triste, é uma descrição de mim, uma descrição que uma pessoa que me conhece há meia hora pode fazer. Ainda assim, nunca foi levada em conta, eu nunca achei que precisaria contar ao médico que eu tinha explosões de humor, de alegria, de vontade de viver. Quem vai achar que vontade de viver pode ser patológico?



sábado, 22 de outubro de 2022

Eu vi a tarde

 Hoje, eu vi a tarde passar.

Parece uma coisa tola, todos os dias tem tardes, infalivelmente elas passam, mas raramente podemos ver e hoje, hoje eu estava sentada em minha varanda e vi.

Começou as três, eu me sentei, não de propósito, não com objetivo de ver mas para falar ao telefone e aproveitar a brisa fresca, tão rara na primavera. 

O sol batia no canteiro, banhando todas as plantas, quando dei por mim, ele já estava escalando o muro, minha ligação já havia se encerrado, a pessoa que eu esperava não tinha chegado e eu estava ali.

Eu ri, quem sabe quantas tardes eu já perdi? Mas hoje, hoje eu vi a tarde passar.

sábado, 12 de fevereiro de 2022

Trinta dias

 Tratamento psicológico/psiquiátrico não é novidade para mim, tenho depressão e ansiedade desde muito jovem, mas apenas há nove anos cuido com os profissionais adequados.

Há todo um aprendizado envolvido no tratamento, não só o autoconhecimento e a autorregulação, mas é preciso aprender a falar, a explicar, a narrar o que se sente, o que se pensa, como é sentir e pensar isso tudo. 

Hoje, eu sei falar o que sinto. Isso facilita o tratamento.

Já me afastei do trabalho, por curtos períodos, para me adaptar a uma nova medicação, por luto e por doenças/cirurgias, contudo cheguei ao ponto de ser afastada por não ter condições cognitivas e nem emocionais de desenvolver minhas tarefas. Serão TRINTA DIAS, afastada e tentando voltar para um estado produtivo e saudável.

Como se chega a esse estado? Por que uma pessoa “tão alegre” como eu pode ter depressão? 

Eu poderia dar uma aula, desde as questões emocionais mais básicas até às neurológicas, para explicar isso mas a internet tem aos montes, todo tipo de resposta, menos a minha experiência de vida.

Sou uma mulher forte, desde criança forjada para ser uma muralha, uma força da natureza, imparável. A minha geração é feita dessas mulheres, que assumem as responsabilidades no peito, que criam os filhos sozinhas, que seguram as pontas dos amigos, que dão conta do trabalho e sentem orgulho de tudo isso. Ninguém se lembra de ensinar a descansar, a se cuidar, a aceitar amor genuíno e não os amores abusivos que nos cercam.


Esse cansaço, essa falta de amor maduro, esse peso vai infiltrando-nos, abre rachaduras, estufa aqui, mofa ali e de repente, a muralha vem abaixo. A minha veio. Mesmo com todo acompanhamento, os remendos que a gente coloca aqui e ali, a pressão da vida só aumenta, porque sempre vão dizer que você dá conta, que só você mesma poderia fazer tal coisa…

Nós precisamos de uma nova revolução feminista, revolução de cura e acolhimento.

Tenho a sorte de ter um emprego, um acompanhamento e poder parar para me cuidar, mas quantas outras mulheres estão desabando sem poder nem chorar fora do chuveiro, sem que ninguém de apoio?

Daqui a pouco é março, flores e bombons não curam nosso feminino vilipendiado.





terça-feira, 10 de novembro de 2020

A barata morta

 Faz dois dias. Duas noites e dois dias que ela está lá, morta.
Há uma barata morta no meu banheiro, eu entro, tomo banho, ela flutua na água, se ilude que vai descer pelo ralo, mas não desce.
Eu a olho de cima, ela não vê nada. Foi covardia minha, por veneno nos ralos sem nem ao menos avisar, correr atrás dela com chinelo na mão, fazer uma gritaria para ela saber que o fim estava próximo, muita covardia.

As formigas já tentaram esquartejar o corpo inerte, sem resistência, apetitoso - era uma barata gorda - mas corpos envenenados não são bem vindos, formigas são inteligentes.

Penso longamente sobre a barata, se houvesse mais alguém aqui, ela já não estaria ali, meus filhos tem medo de bicho, mesmo morto; outras pessoas tem nojo, que é o nome do tipo de medo que adulto sente de bicho, vivo ou morto. O certo é que ela não estaria aqui se não fossemos apenas nós duas no apartamento. 

Lá fora ninguém sabe, eu vivo com um cadáver, que não me assusta, nem me enoja, que não me causa sentimento nenhum.

Você deve estar se perguntando por que então não jogo fora a infeliz e acabo com isso, simples, porque eu não quero, porque a matei e não tenho nenhum medo, posso olhar para ela por horas, ela sempre estará lá.

(Texto autoral)


Fonte:https://assets.almanaquesos.com/wp-content/uploads/2018/01/6be05a80-a359-4196-bff5-3a8053d06d06.jpg