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sábado, 12 de fevereiro de 2022

Trinta dias

 Tratamento psicológico/psiquiátrico não é novidade para mim, tenho depressão e ansiedade desde muito jovem, mas apenas há nove anos cuido com os profissionais adequados.

Há todo um aprendizado envolvido no tratamento, não só o autoconhecimento e a autorregulação, mas é preciso aprender a falar, a explicar, a narrar o que se sente, o que se pensa, como é sentir e pensar isso tudo. 

Hoje, eu sei falar o que sinto. Isso facilita o tratamento.

Já me afastei do trabalho, por curtos períodos, para me adaptar a uma nova medicação, por luto e por doenças/cirurgias, contudo cheguei ao ponto de ser afastada por não ter condições cognitivas e nem emocionais de desenvolver minhas tarefas. Serão TRINTA DIAS, afastada e tentando voltar para um estado produtivo e saudável.

Como se chega a esse estado? Por que uma pessoa “tão alegre” como eu pode ter depressão? 

Eu poderia dar uma aula, desde as questões emocionais mais básicas até às neurológicas, para explicar isso mas a internet tem aos montes, todo tipo de resposta, menos a minha experiência de vida.

Sou uma mulher forte, desde criança forjada para ser uma muralha, uma força da natureza, imparável. A minha geração é feita dessas mulheres, que assumem as responsabilidades no peito, que criam os filhos sozinhas, que seguram as pontas dos amigos, que dão conta do trabalho e sentem orgulho de tudo isso. Ninguém se lembra de ensinar a descansar, a se cuidar, a aceitar amor genuíno e não os amores abusivos que nos cercam.


Esse cansaço, essa falta de amor maduro, esse peso vai infiltrando-nos, abre rachaduras, estufa aqui, mofa ali e de repente, a muralha vem abaixo. A minha veio. Mesmo com todo acompanhamento, os remendos que a gente coloca aqui e ali, a pressão da vida só aumenta, porque sempre vão dizer que você dá conta, que só você mesma poderia fazer tal coisa…

Nós precisamos de uma nova revolução feminista, revolução de cura e acolhimento.

Tenho a sorte de ter um emprego, um acompanhamento e poder parar para me cuidar, mas quantas outras mulheres estão desabando sem poder nem chorar fora do chuveiro, sem que ninguém de apoio?

Daqui a pouco é março, flores e bombons não curam nosso feminino vilipendiado.