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| Tá com tempo? Vou te contar uma história. |
Eu nunca me senti "normal", eu nunca estive à vontade comigo mesma e nem com os outros.
Sempre fui chorona, enfezada, raivosa, ou melhor, furiosa. Poucos conseguiam acessar minha suavidade, meu apreço e meu carinho; quem conseguia, sabendo cuidar, o manteria (algumas dessas pessoas ainda mantém) eternamente.
Aos treze anos, me recordo da primeira vez que a tristeza me invadiu, como se sugasse de mim toda minha luz e me deixasse densa, no breu dos meus pensamentos.
Eu experimentei o vazio, não imaginava e nem imaginaria, que esse seria meu companheiro de jornada. Meus diários de adolescente são repletos de tristeza e dor. Nada nunca fez muito sentido, eu me perguntava por que as pessoas queriam tanto continuar viva? Mas havia dias que eu superava, vivia e animava como se tudo estivesse bem.
Da adolescência para a vida adulta, vivi paixões épicas e avassaladoras, que duravam dois a três meses e terminavam, assim como começaram. Não me importava o impacto, se era um rapaz bonito ou muito jovem, se era muito mais velho, eu me permitia viver cada paixão como quem vive um filme e me esquecia que na vida os créditos não sobem, porque não tem final feliz, porque a vida continua no dia seguinte.
Geralmente, depois de promessas de amor eterno, de beijos calorosos e o desejo, amarrado e contido pela religião, eu acordava uma manhã e estava lá o vazio, sentado ao pé da minha cama, me assombrando e me avisando que aquela alegria tinha acabado. Eu terminava os namoros e sofria, chorava por dias, porque aquele enorme vazio passava a ocupar tudo.
Hoje, com o diagnóstico e com mais dados, posso entender comportamentos que eu não sabia explicar, que eu experienciava às cegas. Minha vida inteira foi um campo de batalha onde eu estava vendada.

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