Os primeiros dias foram suaves, como toda novidade, mesmo vindo embrulhada em medo, era uma novidade. Fomos nos acomodando, abrindo espaço para aqueles dias, eu os contei até o centésimo, depois abandonei a conta, sem perspectiva de fim, melhor era deixar os dias correrem.
Eu senti medo, quis me esconder, esconder minha prole, proteger de tudo. Passamos os primeiros cem dias trancados, saindo apenas para o extremamente necessário, cumprindo todos os protocolos e vendo todo o resto ignorar.
Aos pouco saímos de casa, uma viagem curta e sem paradas à casa de meus pais, mais dias sem sair de casa.
Sete meses já se passaram, tantas mortes, tantas vidas desperdiçadas.
Tenho lido muito, assistido muitos filmes e tentado manter a mente quieta, mas hoje, exatamente hoje eu me sinto tragada para um fundo de poço, para sem-fim, sem forças para nadar de volta, sem coragem para resistir. Essa opção não existe, eu não tenho escolha, eu nunca posso parar, eu não posso enfurecer e quebrar tudo, não posso falar alto, não posso abrir o gás e trancar tudo para esperar a explosão.
Eu não sei se a quarentena está me enlouquecendo ou se ela está apenas me mostrando quem eu sou, bem de perto.