O que se previa terminar em trinta dias tomou uma proporção gigantesca, volumosa e nada, nada bonita.
Os primeiros 30 dias passaram, contados um a um, com fotos, mensagens que foram postados no Instagram e tomados de mim, sem uma explicação lógica. Tirar minha voz, meu direito de argumentar, é pior do que me tirar meu ar, me sufocar lentamente.
Foram muitas pequenas e grandes coisas, foram 218 dias, muitos deles de prostração completa, de desolação, de solidão. O sorriso pálido, de cera para que eu parecesse minimamente bem, o caminhar arrastado pelo corredor do quarto para a sala e então de volta ao quarto.
Ter que ser duas pessoas: uma que esconde os remédios, o bisturi, os sacos plásticos, que é forte para levantar e passar o café de manhã e mandar os filhos para escola e; outra que procura o bisturi escondido, que corta onde ninguém enxerga, que toma os comprimidos e depois cospe, que coloca o saco na cabeça e chora no chão do banheiro, ter que viver sendo as duas cansa mais do que tudo, para evitá-las eu durmo, no mundo onírico não há disputa pela vida ou morte.
Transtorno Afetivo Bipolar
Em termos leigos, a pessoa que hora está alegre e por qualquer coisa já explode ou fica triste, é uma descrição de mim, uma descrição que uma pessoa que me conhece há meia hora pode fazer. Ainda assim, nunca foi levada em conta, eu nunca achei que precisaria contar ao médico que eu tinha explosões de humor, de alegria, de vontade de viver. Quem vai achar que vontade de viver pode ser patológico?
