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quinta-feira, 20 de abril de 2023

Maré baixa

Só me sobrou andar
E eu já nem vou no mar
E o que me resta
O vento traz
E leva as lembranças

(Crédito: Maré Baixa - Pitanga em Pé de Amora - LETRAS.MUS.BR)


Há dias não entro aqui para escrever, sim, a maré baixou e eu me vi sumir um pouco.


Estava compartilhando os posts no Facebook, mas fui alertada de que estava produzindo SPAM e que poderia perder minha conta, novamente. Em setembro do ano passado, perdi uma conta com 12 anos de uso, lembranças dos meus amigos, mensagens de todos os aniversários e as gracinhas dos meus filhos, tudo foi simplesmente apagado, da noite para o dia. A simples lembrança disto me colocou num pote e fechou a tampa.

Claro que só hoje, passada uma semana, consegui entender o desânimo que me cobriu e porque me afastei do blog. Coisas simples assim fazem a maré baixar, a chave virar e tudo perder o sentido. Talvez para você pareça uma bobagem, uma coisa sem importância, mas o silenciamento de uma rede social, o medo de ser silenciada novamente me coloca na funda de um estilingue e me lança, sem dó nem piedade, para o deserto escuro e frio.

Nos dias de deserto, quando não é uma tristeza absurda que corrói meus ossos, é uma desesperança, uma apatia do tamanho do infinito que se torna a minha companheira. Inércia total, se tudo pára, eu ando, se tudo anda, eu paro. 

Claro que não foi apenas o email do Facebook, porque a vida sempre aproveita para trazer mais pancadas; o término de um relacionamento, um filho que adoece, a velha luta para esticar o dinheiro até o fim do mês... Tudo se junta, se soma para fortalecer a mão invisível que puxa a funda do estilingue.

Quero sair daqui.



sábado, 12 de fevereiro de 2022

Trinta dias

 Tratamento psicológico/psiquiátrico não é novidade para mim, tenho depressão e ansiedade desde muito jovem, mas apenas há nove anos cuido com os profissionais adequados.

Há todo um aprendizado envolvido no tratamento, não só o autoconhecimento e a autorregulação, mas é preciso aprender a falar, a explicar, a narrar o que se sente, o que se pensa, como é sentir e pensar isso tudo. 

Hoje, eu sei falar o que sinto. Isso facilita o tratamento.

Já me afastei do trabalho, por curtos períodos, para me adaptar a uma nova medicação, por luto e por doenças/cirurgias, contudo cheguei ao ponto de ser afastada por não ter condições cognitivas e nem emocionais de desenvolver minhas tarefas. Serão TRINTA DIAS, afastada e tentando voltar para um estado produtivo e saudável.

Como se chega a esse estado? Por que uma pessoa “tão alegre” como eu pode ter depressão? 

Eu poderia dar uma aula, desde as questões emocionais mais básicas até às neurológicas, para explicar isso mas a internet tem aos montes, todo tipo de resposta, menos a minha experiência de vida.

Sou uma mulher forte, desde criança forjada para ser uma muralha, uma força da natureza, imparável. A minha geração é feita dessas mulheres, que assumem as responsabilidades no peito, que criam os filhos sozinhas, que seguram as pontas dos amigos, que dão conta do trabalho e sentem orgulho de tudo isso. Ninguém se lembra de ensinar a descansar, a se cuidar, a aceitar amor genuíno e não os amores abusivos que nos cercam.


Esse cansaço, essa falta de amor maduro, esse peso vai infiltrando-nos, abre rachaduras, estufa aqui, mofa ali e de repente, a muralha vem abaixo. A minha veio. Mesmo com todo acompanhamento, os remendos que a gente coloca aqui e ali, a pressão da vida só aumenta, porque sempre vão dizer que você dá conta, que só você mesma poderia fazer tal coisa…

Nós precisamos de uma nova revolução feminista, revolução de cura e acolhimento.

Tenho a sorte de ter um emprego, um acompanhamento e poder parar para me cuidar, mas quantas outras mulheres estão desabando sem poder nem chorar fora do chuveiro, sem que ninguém de apoio?

Daqui a pouco é março, flores e bombons não curam nosso feminino vilipendiado.