É bem difícil entender o outro, o ser que não é você, que habita outro corpo. O outro é todo mundo, menos você; mas, às vezes acontece de um outro estar dividindo espaço no mesmo corpo, na mesma mente, no mesmo coração.
Ser bipolar, estar no espectro bipolar, é conviver com um reflexo de si, distorcido e sorrateiro, não há avisos de que a chave vai virar e tudo se inverterá, simplesmente você vira outra pessoa. Já perdi as contas de quantas vezes eu ouvi essa frase: "você parecia outra pessoa", sim, eu chave tinha virado, como um disjuntor que desmonta quando você está no banho quente, a luz se apaga, a agua fica fria e lá vai você, todo ensaboado e molhado, tateando pela casa, para achar "ligar a chave".
Quando eu tinha 20 e poucos anos, tinha o hábito de dizer que minha alma parecia um ratinho em um labirinto, correndo desesperadamente e o labirinto era minha mente. Passava dias sem conseguir coordenar as ideias, numa agitação que, agora eu sei, deixava irritada e sem paciência nenhuma. O TAB já estava lá, mas era chamado de TPMC (c é de cão, meu pai gentilmente criou essa categoria para mim, TPM do cão), de gênio forte, de temperamento colérico, entre tantos outros.
Agora, você deve estar se perguntando o por quê do título, certo?
Na fase da mania ou hipomania (euforia), pode acontecer de uma raiva tomar conta, com muita violência e assustar quem está perto. Eu já tive essas explosões, perdi diversos empregos, amigos e relacionamentos por conta disso. Na hora da fúria, as palavras saem por conta própria, nem sempre verdades, mas sempre agressivas. O grito entalado é o exercício constante, controlar a fera e não deixar a avalanche de ofensas descer a montanha.
Eu sei que música que escolhi para ilustrar se chama Grito de Alerta, mas os versos escolhidos traduzem a vida de quem vive a bipolaridade, porque nosso copo está sempre cheio, mas há um grito entalado que não nos deixa engolir.
Até breve.

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