terça-feira, 10 de novembro de 2020

A barata morta

 Faz dois dias. Duas noites e dois dias que ela está lá, morta.
Há uma barata morta no meu banheiro, eu entro, tomo banho, ela flutua na água, se ilude que vai descer pelo ralo, mas não desce.
Eu a olho de cima, ela não vê nada. Foi covardia minha, por veneno nos ralos sem nem ao menos avisar, correr atrás dela com chinelo na mão, fazer uma gritaria para ela saber que o fim estava próximo, muita covardia.

As formigas já tentaram esquartejar o corpo inerte, sem resistência, apetitoso - era uma barata gorda - mas corpos envenenados não são bem vindos, formigas são inteligentes.

Penso longamente sobre a barata, se houvesse mais alguém aqui, ela já não estaria ali, meus filhos tem medo de bicho, mesmo morto; outras pessoas tem nojo, que é o nome do tipo de medo que adulto sente de bicho, vivo ou morto. O certo é que ela não estaria aqui se não fossemos apenas nós duas no apartamento. 

Lá fora ninguém sabe, eu vivo com um cadáver, que não me assusta, nem me enoja, que não me causa sentimento nenhum.

Você deve estar se perguntando por que então não jogo fora a infeliz e acabo com isso, simples, porque eu não quero, porque a matei e não tenho nenhum medo, posso olhar para ela por horas, ela sempre estará lá.

(Texto autoral)


Fonte:https://assets.almanaquesos.com/wp-content/uploads/2018/01/6be05a80-a359-4196-bff5-3a8053d06d06.jpg

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

A quarentena

 Os primeiros dias foram suaves, como toda novidade, mesmo vindo embrulhada em medo, era uma novidade. Fomos nos acomodando, abrindo espaço para aqueles dias, eu os contei até o centésimo, depois abandonei a conta, sem perspectiva de fim, melhor era deixar os dias correrem.

Eu senti medo, quis me esconder, esconder minha prole, proteger de tudo. Passamos os primeiros cem dias trancados, saindo apenas para o extremamente necessário, cumprindo todos os protocolos e vendo todo o resto ignorar. 

Aos pouco saímos de casa, uma viagem curta e sem paradas à casa de meus pais, mais dias sem sair de casa. 

Sete meses já se passaram, tantas mortes, tantas vidas desperdiçadas.

Tenho lido muito, assistido muitos filmes e tentado manter a mente quieta, mas hoje, exatamente hoje eu me sinto tragada para um fundo de poço, para sem-fim, sem forças para nadar de volta, sem coragem para resistir. Essa opção não existe, eu não tenho escolha, eu nunca posso parar, eu não posso enfurecer e quebrar tudo, não posso falar alto, não posso abrir o gás e trancar tudo para esperar a explosão.

Eu não sei se a quarentena está me enlouquecendo ou se ela está apenas me mostrando quem eu sou, bem de perto.