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quinta-feira, 20 de abril de 2023

Maré baixa

Só me sobrou andar
E eu já nem vou no mar
E o que me resta
O vento traz
E leva as lembranças

(Crédito: Maré Baixa - Pitanga em Pé de Amora - LETRAS.MUS.BR)


Há dias não entro aqui para escrever, sim, a maré baixou e eu me vi sumir um pouco.


Estava compartilhando os posts no Facebook, mas fui alertada de que estava produzindo SPAM e que poderia perder minha conta, novamente. Em setembro do ano passado, perdi uma conta com 12 anos de uso, lembranças dos meus amigos, mensagens de todos os aniversários e as gracinhas dos meus filhos, tudo foi simplesmente apagado, da noite para o dia. A simples lembrança disto me colocou num pote e fechou a tampa.

Claro que só hoje, passada uma semana, consegui entender o desânimo que me cobriu e porque me afastei do blog. Coisas simples assim fazem a maré baixar, a chave virar e tudo perder o sentido. Talvez para você pareça uma bobagem, uma coisa sem importância, mas o silenciamento de uma rede social, o medo de ser silenciada novamente me coloca na funda de um estilingue e me lança, sem dó nem piedade, para o deserto escuro e frio.

Nos dias de deserto, quando não é uma tristeza absurda que corrói meus ossos, é uma desesperança, uma apatia do tamanho do infinito que se torna a minha companheira. Inércia total, se tudo pára, eu ando, se tudo anda, eu paro. 

Claro que não foi apenas o email do Facebook, porque a vida sempre aproveita para trazer mais pancadas; o término de um relacionamento, um filho que adoece, a velha luta para esticar o dinheiro até o fim do mês... Tudo se junta, se soma para fortalecer a mão invisível que puxa a funda do estilingue.

Quero sair daqui.



quinta-feira, 13 de abril de 2023

TAB - Grito entalado

"Só sinto no ar o momento em que o copo está cheio
e que já não dá mais pra engolir.
(A canção Grito de Alerta foi composta por Gonzaguinha e lançada na voz marcante de Maria Bethânia, em 1979.) Ouça aqui.


É bem difícil entender o outro, o ser que não é você, que habita outro corpo. O outro é todo mundo, menos você; mas, às vezes acontece de um outro estar dividindo espaço no mesmo corpo, na mesma mente, no mesmo coração.

Ser bipolar, estar no espectro bipolar, é conviver com um reflexo de si, distorcido e sorrateiro, não há avisos de que a chave vai virar e tudo se inverterá, simplesmente você vira outra pessoa. Já perdi as contas de quantas vezes eu ouvi essa frase: "você parecia outra pessoa", sim, eu chave tinha virado, como um disjuntor que desmonta quando você está no banho quente, a luz se apaga, a agua fica fria e lá vai você, todo ensaboado e molhado, tateando pela casa, para achar "ligar a chave". 

Quando eu tinha 20 e poucos anos, tinha o hábito de dizer que minha alma parecia um ratinho em um labirinto, correndo desesperadamente e o labirinto era minha mente. Passava dias sem conseguir coordenar as ideias, numa agitação que, agora eu sei, deixava irritada e sem paciência nenhuma. O TAB já estava lá, mas era chamado de TPMC (c é de cão, meu pai gentilmente criou essa categoria para mim, TPM do cão), de gênio forte, de temperamento colérico, entre tantos outros. 

Agora, você deve estar se perguntando o por quê do título, certo?
Na fase da mania ou hipomania (euforia), pode acontecer de uma raiva tomar conta, com muita violência e assustar quem está perto. Eu já tive essas explosões, perdi diversos empregos, amigos e relacionamentos por conta disso. Na hora da fúria, as palavras saem por conta própria,  nem sempre verdades, mas sempre agressivas. O grito entalado é o exercício constante, controlar a fera e não deixar a avalanche de ofensas descer a montanha.

Eu sei que música que escolhi para ilustrar se chama Grito de Alerta, mas os versos escolhidos traduzem a vida de quem vive a bipolaridade, porque nosso copo está sempre cheio, mas há um grito entalado que não nos deixa engolir.



Até breve.

terça-feira, 11 de abril de 2023

Transtorno Afetivo Bipolar - TAB, hora de falar sobre isso *1




Tá com tempo? Vou te contar uma história.

Eu nunca me senti "normal", eu nunca estive à vontade comigo mesma e nem com os outros. 
Sempre fui chorona, enfezada, raivosa, ou melhor, furiosa. Poucos conseguiam acessar minha suavidade, meu apreço e meu carinho; quem conseguia, sabendo cuidar, o manteria (algumas dessas pessoas ainda mantém) eternamente.

Aos treze anos, me recordo da primeira vez que a tristeza me invadiu, como se sugasse de mim toda minha luz e me deixasse densa, no breu dos meus pensamentos. 

Eu experimentei o vazio, não imaginava e nem imaginaria, que esse seria meu companheiro de jornada. Meus diários de adolescente são repletos de tristeza e dor. Nada nunca fez muito sentido, eu me perguntava por que as pessoas queriam tanto continuar viva? Mas havia dias que eu superava, vivia e animava como se tudo estivesse bem.

Da adolescência para a vida adulta, vivi paixões épicas e avassaladoras, que duravam dois a três meses e terminavam, assim como começaram. Não me importava o impacto, se era um rapaz bonito ou muito jovem, se era muito mais velho, eu me permitia viver cada paixão como quem vive um filme e me esquecia que na vida os créditos não sobem, porque não tem final feliz, porque a vida continua no dia seguinte. 

Geralmente, depois de promessas de amor eterno, de beijos calorosos e o desejo, amarrado e contido pela religião, eu acordava uma manhã e estava lá o vazio, sentado ao pé da minha cama, me assombrando e me avisando que aquela alegria tinha acabado. Eu terminava os namoros e sofria, chorava por dias, porque aquele enorme vazio passava a ocupar tudo.

Hoje, com o diagnóstico e com mais dados, posso entender comportamentos que eu não sabia explicar, que eu experienciava às cegas. Minha vida inteira foi um campo de batalha onde eu estava vendada.
Descabelada

Ainda não é fácil, quando eu penso que acertamos na medicação, algum efeito colateral me derruba e a saga recomeça. Estou no caminho, na luta, sem as vendas mas sem óculos de proteção. 

Conhece alguém que tenha o diagnóstico? Suspeita de que alguém possa ser uma pessoa com TAB? Comente.