segunda-feira, 10 de abril de 2023

Lusco fusco


 LUSCO FUSCO 

Quando o calor arrefece

A fronte já não escorre

Os olhos podem mirar o céu

Sem ferir os olhos, eis o momento.

Os pássaros voltam para os seus ninhos

As crianças já estão seguras em casa

Os trabalhadores findam seu labor

Se acomodam no transporte, eis o momento.

Quando os outros laços já estavam desfeitos

O coração desacreditado se protegia

As rugas rasgavam a face desanimada

Um clarão suave fez desmanchar o dia

Para nascer a noite

Eis o momento, lusco fusco, em que eu achei ter visto o amor.



Lagoa Maior - Três Lagoas/MS



quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

7 meses e meio - Voltando devagar

 O que se previa terminar em trinta dias tomou uma proporção gigantesca, volumosa e nada, nada bonita.

Os primeiros 30 dias passaram, contados um a um, com fotos, mensagens que foram postados no Instagram e tomados de mim, sem uma explicação lógica. Tirar minha voz, meu direito de argumentar, é pior do que me tirar meu ar, me sufocar lentamente.

Foram muitas pequenas e grandes coisas, foram 218 dias, muitos deles de prostração completa, de desolação, de solidão. O sorriso pálido, de cera para que eu parecesse minimamente bem, o caminhar arrastado pelo corredor do quarto para a sala e então de volta ao quarto. 

Ter que ser duas pessoas: uma que esconde os remédios, o bisturi, os sacos plásticos, que é forte para levantar e passar o café de manhã e mandar os filhos para escola e; outra que procura o bisturi escondido, que corta onde ninguém enxerga, que toma os comprimidos e depois cospe, que coloca o saco na cabeça e chora no chão do banheiro, ter que viver sendo as duas cansa mais do que tudo, para evitá-las eu durmo, no mundo onírico não há disputa pela vida ou morte.


Transtorno Afetivo Bipolar

Em termos leigos, a pessoa que hora está alegre e por qualquer coisa já explode ou fica triste, é uma descrição de mim, uma descrição que uma pessoa que me conhece há meia hora pode fazer. Ainda assim, nunca foi levada em conta, eu nunca achei que precisaria contar ao médico que eu tinha explosões de humor, de alegria, de vontade de viver. Quem vai achar que vontade de viver pode ser patológico?



sábado, 22 de outubro de 2022

Eu vi a tarde

 Hoje, eu vi a tarde passar.

Parece uma coisa tola, todos os dias tem tardes, infalivelmente elas passam, mas raramente podemos ver e hoje, hoje eu estava sentada em minha varanda e vi.

Começou as três, eu me sentei, não de propósito, não com objetivo de ver mas para falar ao telefone e aproveitar a brisa fresca, tão rara na primavera. 

O sol batia no canteiro, banhando todas as plantas, quando dei por mim, ele já estava escalando o muro, minha ligação já havia se encerrado, a pessoa que eu esperava não tinha chegado e eu estava ali.

Eu ri, quem sabe quantas tardes eu já perdi? Mas hoje, hoje eu vi a tarde passar.

sábado, 12 de fevereiro de 2022

Trinta dias

 Tratamento psicológico/psiquiátrico não é novidade para mim, tenho depressão e ansiedade desde muito jovem, mas apenas há nove anos cuido com os profissionais adequados.

Há todo um aprendizado envolvido no tratamento, não só o autoconhecimento e a autorregulação, mas é preciso aprender a falar, a explicar, a narrar o que se sente, o que se pensa, como é sentir e pensar isso tudo. 

Hoje, eu sei falar o que sinto. Isso facilita o tratamento.

Já me afastei do trabalho, por curtos períodos, para me adaptar a uma nova medicação, por luto e por doenças/cirurgias, contudo cheguei ao ponto de ser afastada por não ter condições cognitivas e nem emocionais de desenvolver minhas tarefas. Serão TRINTA DIAS, afastada e tentando voltar para um estado produtivo e saudável.

Como se chega a esse estado? Por que uma pessoa “tão alegre” como eu pode ter depressão? 

Eu poderia dar uma aula, desde as questões emocionais mais básicas até às neurológicas, para explicar isso mas a internet tem aos montes, todo tipo de resposta, menos a minha experiência de vida.

Sou uma mulher forte, desde criança forjada para ser uma muralha, uma força da natureza, imparável. A minha geração é feita dessas mulheres, que assumem as responsabilidades no peito, que criam os filhos sozinhas, que seguram as pontas dos amigos, que dão conta do trabalho e sentem orgulho de tudo isso. Ninguém se lembra de ensinar a descansar, a se cuidar, a aceitar amor genuíno e não os amores abusivos que nos cercam.


Esse cansaço, essa falta de amor maduro, esse peso vai infiltrando-nos, abre rachaduras, estufa aqui, mofa ali e de repente, a muralha vem abaixo. A minha veio. Mesmo com todo acompanhamento, os remendos que a gente coloca aqui e ali, a pressão da vida só aumenta, porque sempre vão dizer que você dá conta, que só você mesma poderia fazer tal coisa…

Nós precisamos de uma nova revolução feminista, revolução de cura e acolhimento.

Tenho a sorte de ter um emprego, um acompanhamento e poder parar para me cuidar, mas quantas outras mulheres estão desabando sem poder nem chorar fora do chuveiro, sem que ninguém de apoio?

Daqui a pouco é março, flores e bombons não curam nosso feminino vilipendiado.





terça-feira, 10 de novembro de 2020

A barata morta

 Faz dois dias. Duas noites e dois dias que ela está lá, morta.
Há uma barata morta no meu banheiro, eu entro, tomo banho, ela flutua na água, se ilude que vai descer pelo ralo, mas não desce.
Eu a olho de cima, ela não vê nada. Foi covardia minha, por veneno nos ralos sem nem ao menos avisar, correr atrás dela com chinelo na mão, fazer uma gritaria para ela saber que o fim estava próximo, muita covardia.

As formigas já tentaram esquartejar o corpo inerte, sem resistência, apetitoso - era uma barata gorda - mas corpos envenenados não são bem vindos, formigas são inteligentes.

Penso longamente sobre a barata, se houvesse mais alguém aqui, ela já não estaria ali, meus filhos tem medo de bicho, mesmo morto; outras pessoas tem nojo, que é o nome do tipo de medo que adulto sente de bicho, vivo ou morto. O certo é que ela não estaria aqui se não fossemos apenas nós duas no apartamento. 

Lá fora ninguém sabe, eu vivo com um cadáver, que não me assusta, nem me enoja, que não me causa sentimento nenhum.

Você deve estar se perguntando por que então não jogo fora a infeliz e acabo com isso, simples, porque eu não quero, porque a matei e não tenho nenhum medo, posso olhar para ela por horas, ela sempre estará lá.

(Texto autoral)


Fonte:https://assets.almanaquesos.com/wp-content/uploads/2018/01/6be05a80-a359-4196-bff5-3a8053d06d06.jpg

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

A quarentena

 Os primeiros dias foram suaves, como toda novidade, mesmo vindo embrulhada em medo, era uma novidade. Fomos nos acomodando, abrindo espaço para aqueles dias, eu os contei até o centésimo, depois abandonei a conta, sem perspectiva de fim, melhor era deixar os dias correrem.

Eu senti medo, quis me esconder, esconder minha prole, proteger de tudo. Passamos os primeiros cem dias trancados, saindo apenas para o extremamente necessário, cumprindo todos os protocolos e vendo todo o resto ignorar. 

Aos pouco saímos de casa, uma viagem curta e sem paradas à casa de meus pais, mais dias sem sair de casa. 

Sete meses já se passaram, tantas mortes, tantas vidas desperdiçadas.

Tenho lido muito, assistido muitos filmes e tentado manter a mente quieta, mas hoje, exatamente hoje eu me sinto tragada para um fundo de poço, para sem-fim, sem forças para nadar de volta, sem coragem para resistir. Essa opção não existe, eu não tenho escolha, eu nunca posso parar, eu não posso enfurecer e quebrar tudo, não posso falar alto, não posso abrir o gás e trancar tudo para esperar a explosão.

Eu não sei se a quarentena está me enlouquecendo ou se ela está apenas me mostrando quem eu sou, bem de perto.



domingo, 20 de janeiro de 2019

Plenitude (2016)

Plenitude

O tempo pára, depois anda devagar.
Quando uma mão se mexe,
Trazendo em si significados,
Significando-se,
Eu me sinto completa.
Meu pertencimento,
Meu lugar no mundo,
É ali, onde o som não mais importa,
É ali, onde um mover de sobrancelha muda o sentido,
Um olhar dá sentido,
Uma expressão muda todo sentido da história.
É poético, eu sei que sou ingênua,
Mas como o cisne,
Que saiu do ovo no ninho errado.
Eu não me sinto igual,
No meio dos que deveriam me ser pares,
Sou ímpar.
E quando o som desaparece,
Avisto quem eu sou,
Faço par, pertenço
Fico plena.

*Minha estranha/apaixonada relação com a  língua de sinais e o mundo dos Surdos.