quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Caro Data Vermibus - O sepultamento do potiguar

Caro Data Vermibus - O sepultamento do potiguar

Para mim, dia de chuva lembra morte, por isso esperei a chuva para matar-lhe e sepultar-lhe.
Nem chovia tanto e nem tinha vendaval, mas teve velório, caixão, vela e terço.
Deitei o corpo no caixão, sepultei e chorei.
Não era bem corpo, era um papel com seu nome. E o caixão era uma caixinha de fósforo, vazia.
Não acendi vela de verdade e não rezei terço.
Eu não sou católica, ele era.
Não foi no cemitério, fiz uma cova rasa num vaso.
Cova rasa como a de João, em sua morte e vida severina.
Não chamei um padre, nem ninguém,
Mas eu mesma fiz uma missa.
Pensei:"-Ele era tão bom!".
Mentira!
Se fosse bom eu não o teria matado, ele não precisaria morrer.
Coloquei o caixão na cova, joguei uma pétala, porque flor era grnade demais.
Chorei um pouco mais...
Disse umas palavras: Caro Data Vermibus!
Lancei a terra devagar e fui chorando devagar.
Deixá-lo ali no frio me doeu, pensava nele sozinho e os vermes...
Vermes não comem papel com nome, defuntos fictícios.
A terra cobriu rapidamente o caixão, ele estava morto e enterrado.
Respirei aliviada, papéis com nome não ressucitam.
Coloquei uma violeta sobre o túmulo, dentro do vaso de violetas.
Voltei para casa, estava no quintal, apenas entrei, pensei nele, na morte dele, em como planejei tudo; a cor do papel, a tinta da caneta, o tipo de letra, a caixa de fósforos, qual vaso usar, o dia de fazer isto... Ah! Livrei-me dele!
Chorei de novo, amava aquele nome na caixinha, amava e estava presa aquele homem morto no caixão e sepultado no vasinho.
Estava viúva, não precisava amá-lo e nem sofrer por ele.
Sepultei-o mas ele anda solto por aí, morto no meu coração.

(Nem preciso explicar mais nada - 2000)

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